Novelas e Como Elas Mostram a Imagem de Quem faz Sexo fora das Convenções Eróticas da nossa sociedade

 

Não gosto de comentar novelas por achar que é uma arte menor que logo é esquecida. Entretanto nada é absoluto. Existem bons atores, as vezes argumentos interessantes e bons momentos em um por cento delas. O que incomoda é que a maioria das novelas peca pela superficialidade, o excesso de clichês, banalidades e a sistemática repetição do pensamento conservador. Não é absoluto também isto. Pode, em raros momentos, refletir ou criticar esse ou aquele aspecto da sociedade em que vivemos. Mas a regra é manterem-se atreladas à ideologia conservadora.

A maioria dos programas de televisão quando se refere a homens que fazem sexo com homens mostra só os que mudam de gênero. O chamado de homossexual efeminado e supostamente engraçado por isto. Quase nunca aparece o que existe também que é o sujeito que não necessita imitar mulheres para amar outro homem. Essa realidade incomoda muito as elites mais conservadoras e, portanto, quase nunca è veiculada. Quando se tenta fazê-lo provoca proibição ou protestos da população incentivada pelas camadas mais retrógradas da sociedade. O que elas temem é que homens comuns amando homens comuns apareçam nos meios de comunicação de massa como uma coisa natural. Principalmente se com atores bonitos, o colorido hollywoodiano e a música romântica como fazem na propaganda das relações sexuais mais convencionais. Desconfiam que se isto ocorresse corromperia as crianças, os adolescentes e os homens comuns. Estão certos. Os meios de comunicação, por isto, limitam-se a repetir o clichê conhecido do personagem efeminado, muitas vezes feioso, ridículo, mal amado, sempre apaixonado por um homem que não o leva a sério ou o explora e mata. Esse comportamento não seduz e ninguém pensaria imitá-lo. Muito pelo contrário. São estereótipos, muitas vezes exagerados, que sugerem que o sexo com o mesmo sexo é ridículo e doentio. Não pode ser levado a sério. Não é um estilo de vida saudável para ninguém. Além disto, mostram um comportamento muito distante das pessoas comuns que jamais se reconheceriam em um desses personagens. Essa é uma das finalidades principais na insistência de mostrá-los com freqüência em peças de teatro, novelas, programas humorísticos ou filmes. Esse é um clichê ideal e muito conveniente para o pensamento conservador. Os casalzinhos jovens abraçadinhos na platéia riem às bandeiras despregadas do veadinho porque ele com seus trejeitos e faniquitos não põe em questão a suposta normalidade dele. Já dois guerreiros, como no filme Alexandre de Oliver Stone, faz o rapaz remexer-se na cadeira, olhar eviesado para a tela, ficar com raiva e alguns gritarem sem se conterem nas cenas, muito sutis por acaso, que sugere o amor entre Alexandre e Herfestion. Por isso o filme incomodou tanto e foi pouco exibido no interior dos Estados Unidos.

O cinema do terceiro Reich mostrava sempre os judeus como sinistros, usurários, malfeitores. Diferente fisicamente das pessoas comuns. Narizes muito proeminentes, maneiras de falar e vestir não usuais. O cinema americano fez o mesmo durante os anos 50 com os comunistas e os russos e agora faz com os árabes. E, tudo, muito inocentemente visando apenas divertir. Os bandidos mais insensíveis do cinema já foram os nazistas, depois os russos e comunistas e agora são os terroristas árabes. Na realidade existem criminosos sádicos. Mas sempre são nazistas, comunistas e árabes? Os homens que gostam de homens são mostrados quase sempre como histéricos, efeminados ou sinistros. O curioso é que, muitas vezes, quem tem essa prática sexual escreve e interpreta essa caricatura, ao que parece, sem se dar conta do que está fazendo. Não sei dizer se um comunista ou um árabe escreveriam uma peça, fariam um filme, criariam personagens de programas humorísticos, novelas ou ainda interpretariam papéis ridicularizando os comunistas ou os árabes. Já muitos homens, que na vida real fazem sexo com o mesmo sexo, interpretam, escrevem novelas e peças, fazem filmes com os mesmos velhos clichês de homens caricatos ridicularizando as relações sexuais como o mesmo sexo. Sob o pretexto de provocar o riso para divertir.

Por motivos ainda não bem explicados, entretanto, algumas novelas brasileiras têm tentado mostrar homens comuns se interessando sentimentalmente por homens comuns. Alguns fatos podem ter contribuído para isto. Ultimamente têm surgido mais filmes que tentam mostrar homens comuns sentimentalmente atraídos por outros sob o mesmo ângulo charmoso, vamos dizer assim, que o cinema sempre mostrou o sexo reprodutivo. Esses filmes são muito poucos mas passaram a existir. Tiveram sucesso entre o público. Ganharam prêmios. Por outro lado alguns autores devem achar justo mostrar esse aspecto da realidade escapando do clichê habitual. E aí chegamos a novela América de Glória Perez que terminará dia 4 de novembro de 2005.

Nela dois homens na zona rural de rodeio, no interior do Brasil, mostram interesse amoroso um pelo outro de forma que o público entende o que está ocorrendo. Existiam filmes e novelas, antigamente, que eram tão sutis, quando ousavam tocar nesse assunto, que ninguém entendia. É um grande avanço que se mostre na novela das oito (horário nobre) uma parte da realidade que todo mundo vê ou conhece: homens comuns podem vir a ter afetividade erótica por outros. Ocorre na realidade e não é tão raro. Só não era mostrado nos meios de comunicação de massa.

A estratégia da repressão é negar, aos que ela considera malditos, qualquer coisa que chegue perto de direitos elementares, dignidade, beleza ou felicidade. Portanto Glória Perez está de parabéns. Entretanto não escapou de todo de caricaturar um dos seus personagens e ligar-se assim a uma ideologia que, embora pareça liberal a princípio, perpetua fatos que não são verdadeiros porque a ciência não os confirma. Ninguém nasce com um destino erótico. Isto é, nascer para gostar de mulher ou de homem. E que seria característica de um homem que se sente atraído por outro ser estilista, sensível, culto, ter dificuldade de montar a cavalo etc. Essa concepção essencialista da sexualidade é discutível. A nossa espécie, não tendo estro e possuindo um córtex cerebral muito desenvolvido, dota o homem de muita imaginação. Qualquer um pode, em algum momento de sua vida, sentir-se atraído por outro do mesmo sexo. Os homens, quase todos, na infância fazem sexo entre si. Depois é que a repressão a esse tipo de atividade sexual os vai domando.

O único pecado da novela América é Júnior ir descobrindo uma suposta personalidade homoerótica que nasceu com ele. Não existe isso. Não é genético se gostar do mesmo sexo. Nenhuma das teorias que tentaram provar uma determinação genética para a sexualidade humana teve respaldo quando verificada, de fato, por outros cientistas com metodologia científica mais rigorosa. Onde homens estão juntos costuma ocorrer sexo e amor explícito ou sublimado entre eles. Existem documentos históricos, John Wayne que me desculpe, que entre cowboys, o sexo entre eles é mais comum do que a gente pensa.

É uma pena que se tenha apresentado o Júnior dessa maneira equivocada. Ele poderia ser comum, como os outros, como é o Zeca que o entende porque conseguiu se livrar da repressão sexual interiorizada. Por isso aceita a possibilidade de vir a se apaixonar por outro do mesmo sexo. Pode, portanto, se permitir corresponder aos olhares, a amizade e, finalmente, ao amor de um garoto bonito como Júnior. Sem fugir, sublimar, camuflar, como muitos fazem, muitas vezes até nem percebendo que aquele amigo o ama e que ele muitas vezes, sob os mais diversos disfarces, também sente o mesmo por ele.